terça-feira, 27 de maio de 2008

PRA VER SE EU CONSEGUIA DIZER QUE TE AMO

Inspirado na música homônima dos Replicantes


Fizemos um show muito legal essa noite, bacana mesmo. E lá do palco eu via ela. Júlia. Linda, linda. Grande fã da minha banda, rockeira ao extremo!!! Dança todas as nossas músicas, sabe todas de cor. É amiga da Raffaella, namorada do vocalista da banda, o Katarrera.

Júlia, esse nome, essa garota não me sai da mente. Sempre nos ensaios ela está lá, e eu admirando sua beleza. Todas as minhas letras de amor são inspiradas nela, espero contar-lhe isso um dia. Quando faço meus solos de guitarra fecho os olhos e imagino que estamos somente nós dois nesse salão, nesse palco. Mas o meu problema, meu grande problema é que não consigo dizer o quanto a amo. Acho que ela não tem namorado, pois está sempre sozinha, mas não consigo me aproximar dela.

Ao final do show de hoje tomamos aquela tradicional cervejada pós show, e conversando com o Tonelada, baterista da banda, acabei deixar escapando que sou apaixonado pela Júlia, pois até então só meus cadernos de rascunho sabiam desse meu amor platônico. E o Tonelada disse que amanhã ele e sua garota, mais o Katarrera e a Raffa iriam a um barzinho, e Júlia estaria lá, sozinha. No começo recusei a idéia, por medo, sei lá. Mas como eu já tinha tomado todas, estava pra lá de chapado ele me convenceu fácil.

Acordei numa puta ressaca. Passei o dia todo deitado com a cabeça estourando. Mas hoje era a grande noite, hoje confessaria meu amor a Júlia. Hoje faria mais uma canção inspirada nela. Como estava muito mal tomei um pó de guaraná pra me recuperar. Essa noite tinha que ser perfeita.

Estava chegando a hora do encontro. Tomei um banho caprichado, comprei o xampu mais caro, pois como sou punk lavo os cabelos só com sabão mesmo, quando os lavo. Vesti minha melhor roupa, hoje é a noite, hoje eu ganho essa garota.

Chegando no barzinho encontro os malucos, o Katarrerra e o Tonelada com suas garotas, mas e Júlia, onde estaria? Cumprimento a todos, mas não pergunto pela garota, no mínimo ela tinha desistido. Até que a Raffaella me pergunta:
- Não estás sentindo falta de ninguém?
-Não sei, acho que estamos todos, não?
Eles riem de mim.
-Não te faz, o Tonelada contou que tu estás afim da Jú. Ela está aqui, só foi buscar uma cerva pra nós!
-Ah, que bom...-respondo com aquele sorriso amarelo, totalmente sem graça.
-Ela está na mão, já trovei ela pra ti! É só chegar nela! Não falei que tu estás apaixonado, mas deixei a entender! Só não vai beber demais hoje né?
-Não, não! Não vou tomar quase nada hoje.

Então chega ela. Mais linda do que nunca. Me diz um “oi” com um lindo sorriso nos lábios. Meu coração dispara. Seria hoje que aquela garota seria minha. Olho nos olhos de Júlia e ela me encara, fico gelado. Então os dois casais levantam-se:
-Nós vamos jogar um bilhar, enquanto vocês conversam...
Eles saem da mesa. Júlia não percebe, mas eles saem do bar, foram embora. Ficaríamos sós a noite inteira...

Chego em casa as seis horas da manhã. Que noite. Ligo meu toca-discos e como a primeira coisa que encontro na geladeira, pois estou morto de fome. Pego meu caderninho, e componho mais uma letra, outra vez inspirado em Júlia, de tudo que queria lhe dizer e na nossa noite:


Agora eu vo me confessar
Tomei um pó de guaraná
Pra ver se eu conseguia dizer que te amo


Confesso já não posso mais
Até nem me chapei de mais
Pra ver se eu conseguia dizer que te amo


Tomei um banho poderoso
Vesti um pano furioso
Pra ver se eu conseguia dizer que te amo


Usei até xampu de erva
Te convidei pruma cerva
Pra ver se eu conseguia dizer que te amo


Eu vo pra casa ouvi um tango
Matar aquele arroz com frango
Depois eu vo fuma uma ponta
Na bronha eu vo passa da conta


Pra esquecer que eu vou morrer
Pra esquecer que eu vou morrer
Sem conseguir dizer que te amo

sexta-feira, 9 de maio de 2008

DesEncontros


Finalmente chegou o grande dia! Depois de alguns meses de intensas conversas via msn e alguns raros telefonemas, ela finalmente concordou em lhe conhecer. Viu algumas poucas fotos dela, mas parecia ser muito bonita. Moreninha, olhos castanhos, cabelo lisinho, corpinho em forma, muito simpática, pelo menos virtualmente. Estava louco para conhecê-la.


Irinélson marcou de se encontrar com a garota da internet no shopping e depois iriam a um cinema. Chegou 20 minutos antes do combinado, sentou num dos bancos no local marcado e começou a angustiante espera. Tentava imaginar como seria o encontro. O que conversaríam? Já sabia o que ela gostava de escutar, os lugares que ela costumava ir, seus filmes preferidos. Já tinham teclado sobre todos esses assuntos, mas para não correr o risco de ficar sem assunto com a menina recorreria a eles. Mas o quye mais lhe afligia era uma dúvida cruel, ou melhor, duas: Como e quando “chegar”na guria? Analisava qual seria o melhor momento para tal. Pensava: “Num bate-papo antes de entrar no cinema? Ou já lá dentro, no escurinho, pouco antes de começar o filme? Ou seria melhor no meio do filme, durante alguma cena romântica? Quem sabe depois do filme, naquela voltinha básica pós-filme dentro do shopping? E se ela não quisesse ficar no primeiro encontro? E se ela não gostar de mim? E se ela não vier pensando em ficar comigo, quiser só me conhecer, e ser minha amiga?”. Resolveu parar de pensar nisso e deixar rolar, ver o que iria acontecer.


Olha o relógio, passaram-se apenas cinco minutos desde que chegara lá, mas parecia que tinham se passado horas e horas. Milhares de dúvidas em sua mente: “Que filme vamos ver? Pipoca doce ou salgada? Refrigerante ou suco? Que roupa será que ela vai estar? Sou direto com ela, digo logo que quero beija-la ou vou envolvendo-a?” Sua mente não aquietava-se. Dúvidas, angústias. Como é difícil um encontro, ainda mais quando não se conhece a pessoa. “Como devo tratá-la? Devo ser mais brincalhão ou mais sério? Mas e se ela me achar um palhaço abobado ou um chato certinho? Devo falar sobre estudos? Mas ela vai achar que eu sou um nerd! E se ela for nerd? E se ela for uma chata? E se ela for uma maníaca e quiser me assassinar, ou me seqüestrar?” Viajava com suas idéias.


Consulta outra vez o relógio, míseros três minutos se passaram, sete ao total. Ainda restavam treze. Aquela espera lhe torturava. De repente no banco ao lado senta-se uma moreninha, inacreditavelmente linda. Parecia-se com a garota que ele esperava: morena, olhos castanhos, mas o rosto era diferente das fotos e o cabelo dessa era encaracolado. Além disso ela sabia que ele estaria de calça jeans azul, uma camiseta verde e tênis. Não tinha como a garota não reconhecê-lo. Pensou em dar um toque no celular, mas logo desistiu da idéia, ficou com medo de que ela achasse que ele estava a pressionando.


Os minutos teimavam em não passar. Ainda faltavam dez minutos para o horário combinado. Olha para a guria ao lado. Ela também devia estar esperando alguém, pois olhava seguidamente para os lados, consultava o relógio, mexia no celular. Começou a imaginar quem deixaria uma linda garota como aquela esperando. Ela devia estar esperando por uma amiga, pois homem nenhum nesse mundo teria coragem de deixar uma beldade como ela esperando, pensava ele. Aqueles cachinhos nos cabelos, uma covinha no rosto, chegou a torcer para que aquela fosse a garota que ele esperava. Ela tinha um ar de independência, admirava mulheres assim. Usava uma blusinha de alça preta, um jeans, tênis all-star. Ouvia um mp3 Player enquanto esperava.


Passaram-se os dez minutos e nada. E vieram mais cinco, mais dez e nada. Cada vez mais achava que era a garota ao lado que ele esperava, ou pelo menos torcia para que fosse. Resolveu então ligar. Caixa de mensagem, estava desligado. A garota ao lado mexia no celular, não podia ser ela mesmo. Mas percebeu que ela também estava ficando impaciente. Resolveu esperar mais cinco minutos, depois iria embora. Já estava irritado pelo provável “bolo” que tinha tomado. Passaram-se os cinco minutos, estava certo de que ele e a sua companheira de espera tinham perdido o encontro. Resolveu ir puxar conversa com ela. Mas o medo o impediu. Voltaram as antigas dúvidas: como puxar assunto, o que falar?


Percebeu que ela também já estava irritada, e já devia estar indo embora. Era essa a hora, agora ou nunca. Mas as pernas tremiam, o coração pulsava descontroladamente. Nunca que uma mulher daquelas daria bola para ele, ela era estupidamente linda. Deviam ter a mesma idade, analisou. Quantos homens deviam correr atrás dela? Quantos a disputavam? Porque logo ele conseguiria conquista-la?

Nisso ela olha mais uma vez o relógio, mexe na bolsa, parece que desistira da espera. Era agora ou nunca. Lembrou-se de um louco amigo que tem como filosofia de vida “Nem pensa, só vai!”. E foi!


-Olá, tudo bem?
- Tudo. Responde ela.
-Eu estou esperando por uma menina, Camila, seria você por acaso?
-Não, não sou eu.
-Ah, que pena.
Ela achou graça, riu. Ela não acreditou no que tinha falado, na verdade não tinha nem acreditado que estava falando com ela.
-Desculpa, mal-educado eu sou, nem me apresentei... (Odiava dizer seu nome, mas tinha que se apresentar a garota, só torcia para que ela não risse dele)... meu nome é Irinélson!
-Prazer, eu sou Penny Lane!
Ele riu. Depois ficou revoltado com sua estupidez, mas achou o nome estranho demais.
-Penny Lane? Estranho né, diferente...
-É de uma música, dos Beatles, conhece né?
-Ah, Beatles, sim claro, quem não conhece né?
Ele não conhecia. Já ouvira falar, mas nunca tinha ouvido uma música deles. Só sabia que era a banda do Jonh Lennon. Ou será que este era vocalista dos Rolling Stones?


Conversaram por um tempo. Irinélson não acreditava que tinha encontrado coragem para puxar conversa com ela, e não acreditava que ela tinha dado conversa para ele. Convidou-a para assistir um filme, já que estavam na frente do cinema mesmo. Lane, como ela disse que seus amigos a chamavam, aceitou. Contou que estava esperando um cara que ela tinha ficado numa festa, mas ele não apareceu.


Irinélson estava radiante, iria assistir um filme na companhia da garota mais linda que ele já conhecera. Mas logo vieram mais dúvidas afligir sua mente. Não poderia desperdiçar aquele momento, tinha que beijar aquela garota, não poderia perder aquela oportunidade. Mas como faze-lo? Voltaram todas aquelas dúvidas sobre como e onde abordar a garota. Estava encantado, agora não mais só com sua beleza, mas com sua inteligência. A garota falava até francês! Estava doido por ela. Mas não podia vacilar. Temia que falasse alguma coisa idiota, e que a guria desistisse dele.

Entraram na fila do cinema. Havia uns três casais na sua frente. Achou estranho o fato de ter apenas casais na fila. Mas não comentou nada. Conforme a fila andava, ela percebeu que os casais se beijavam na frente do caixa, o que achou mais estranho ainda. Penny Lane não percebeu esse fato, pois estava de costas pra bilheteria, falando ao garoto sobre sua vida.


Quando então chegaram no guichê, a atendente pergunta:
- Vão participar da promoção?
-Que promoção? –pergunta ele.
-A promoção do beijo. Se vocês se beijarem pagam meio-ingresso.
-Bem...hã... não sei...
E olha para Penny Lane. Desde que ela sentou-se no banco ao seu lao só o que ele pensava era em beija-la, tê-la em seus braços. E depois que fez amizade com a garota estava aflito imaginado como faria para conseguir. De que maneira ele a seduziria? Como faria para conquistar aquela Deusa? E vem a caixa fazer essa pergunta, seu coração quase saia pela boca, o que dizer nessa hora? O que Lane pensava disso? Não estava preparado para essa pergunta, não sabia o que fazer...
Ela, ouvindo a pergunta da atendente, e vendo que Irinélson fitava-a incrédulo da pergunta e sem saber o que responder, diz a atendente:
-Ah sim, pode ser!
-Mas tem que ser um beijão! – diz a moça.
-Claro!- diz Lanne.

E beijaram-se. E foi um beijão. E Irinélson estava radiante. Não se continha de tanta alegria. O mundo poderia terminar naquele momento. Ele poderia morrer, que morreria feliz. Era o homem mais feliz do mundo naquele momento, e mais sortudo também. Estava realizado. Que mulher era aquela? Independente, inteligente, linda, maravilhosa, e estava em seus braços.

Eles se beijaram aquele dia. E muitas outras vezes mais. E estão juntos até hoje.

E Irinélson atualmente é um dos maiores fãs de Beatles do Brasil.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

HISTÓRIAS...

Carlos e Andréia eram grandes amigos, e certo dia resolveram fazer um curso de teatro. Ele tinha passado algumas tragédias em sua vida, e esse curso era uma forma de tentar reanimar sua vida, que há alguns anos andava meio vazia e pacata.

Passado algumas semanas depois de começar o curso, Andréia conta a Carlos que traria uma amiga sua para o curso também. Ela tinha depressão e tentou até suicidar-se, mas agora estava tentando dar a volta por cima. “Bah, eu passei por dramas e nunca nem pensei em suicídio, se essa guria já tentou isso deve ser aquelas garotas super pra baixo, baixo astral, mimadas, que não se valorizam e não deve ter nenhum amigo também” pensou Carlos, mas não comenta nada com sua amiga.

Na outra semana Andréia chega acompanhada de sua amiga Caroline. Para surpresa de todos, e, principalmente, de Carlos, a garota é extremamente alegre, descontraída e exuberantemente linda. A espontaneidade da garota conquista a todos do curso, e, diferentemente das previsões dele, Carol, como todos passaram a chamá-la, logo se enturmou e fez amizade com todos.

Carlos pergunta a Andréia se aquela era realmente a amiga que ela tinha se referido, pois não podia acreditar que uma garota “descolada” como aquela poderia ter alguma depressão. Porém Andréia lhe adverte que é a menina que ela falou sim, mas era para ele não se enganar com as aparências, pois apesar dela passar essa imagem de bem com a vida aquilo era só uma máscara, uma fuga da realidade, pois quando estava sozinha ela era triste e deprimida. Ele aceitou a explicação da amiga, mas era difícil de acreditar.

Na semana seguinte novamente estava a turma de teatro reunida, e Carlos cada vez se impressionando mais com a simpatia da garota. Ficou impressionado, pois na sua segunda aula ela já era popular e amiga de todos da turma, enquanto ele, que nem tímido era, estava há algumas semanas e tinha feito pouco mais de quatro ou cinco amizades. Naquele dia foi escolhida uma peça que o grupo representaria, e Carlos acabou com um personagem que fazia par com Carol, fato esse que lhe deixou imensamente feliz.

Mas nos ensaios o rapaz se sai mal, ao contrário de Carol, que recebeu vários elogios. Após os ensaios Andréia convida Carlos para ir com ela e mais Carol num barzinho, ao que ele topa. No local as garotas pedem refrigerantes enquanto Carlos pede uma cerveja, ele estranha o fato de sua amiga Andréia pedir a bebida, sabendo que ela gosta muito de uma cerveja, mas resolve não comentar nada sobre o assunto, pois certamente ela não estava bebendo por causa da companhia da Carol.

No meio da conversa eles falam sobre o curso, e como ele se saiu mal, ao que Carol se dispõe a ajudar o novo amigo, pois percebe que ele tem dificuldade de se soltar em cena e de decorar as falas. Claro que ele aceita a ajuda na hora, e fica super contente com o convite. Andréia, que conhecia muito bem os dois começa a analisá-los, e começa a perceber que repentinamente começa a surgir um clima entre os dois, o que a deixava feliz, pois adorava ambos, e sabia que eles tinham um passado difícil, e se acontecesse uma relação entre eles, um poderia ajudar ao outro.

Após alguns ensaios Carlos já estava se saindo muito melhor, reflexo das ajudas da garota. Aos poucos ia surgindo um sentimento por aquela mulher. A princípio ele tentou relutar contra isso, tendo em vista seus traumas antigos, mas aquilo era mais forte que ele. Confessou a Andréia, que já suspeitava. Relatou a amiga que tinha medo, pois talvez estivesse se enganando, pois ela nunca demonstrara se estava sentindo algo ou não, que ela era simpática com todo mundo e ele poderia estar confundindo as coisas, e estragaria uma amizade muito legal que crescia cada vez mais. Andréia respondeu que só o que ela poderia fazer era motivá-lo a ir em frente e declarar a Carolina sobre seus sentimentos, ao que Carlos recusa, ao menos temporariamente.

A cada ensaio a dúvida do sentimento se dispersava cada vez mais. Só o que restava saber era se aquela atração era recíproca ou não. Ela era gentil, carinhosa, atenciosa com todos, será q ele não estava levando as coisas para um lado errado? Mas como Andréia lhe dizia não adiantava ficar se remoendo em dúvidas, só tinha uma maneira de resolver essa questão. Mas ele adiava a decisão de declarar-se.

As semanas passaram-se e chegava a data da apresentação, e conseqüentemente o fim do curso. Andréia pressiona Carlos para declarar-se logo, antes que apareça outro cara e fique com ela. Ele então resolve: Depois da apresentação, numa festinha que eles fariam, ele declararia seu amor!

Na véspera da apresentação foi feito o último ensaio, e após todos foram para um barzinho. Tudo corria normalmente, mas Andréia chama Carlos de canto e lhe diz que estava preocupada, pois Carol parecia estar diferente naquela noite. Ele comenta que não reparou nada, ela parece estar como sempre, pois estava sempre rindo e alegrando a todos, dançando e, como sempre, maravilhosamente linda. Mas Andréia diz:
- Não sei, seu sorriso está estranho, parece lhe ferir!
Carlos acha estranho o que Andréia diz, mas ela se preocupa demais, sempre vê alguma coisa onde não existe nada. Ela concorda, pode ser, mas o pressiona para declarar-se naquela noite, para que esperar mais um dia? Mas ele resiste, amanhã vai ser o dia !

Chega o dia da apresentação, finalmente. Carlos está lá, nervosíssimo. A maioria do elenco já está no teatro, mas nem sinal da carol. Ele liga para Andréia, que já estava a caminho e pede pra ela passar no apartamento da Carol, senão ela iria se atrasar. Andréia tenta inutilmente ligar para o celular da amiga, e vai até a casa dela.

Mais demora, Carlos já não se agüenta mais. Nem era pela apresentação seu nervosismo, mais por ser o dia de declarar seu amor! Já sofrera tanto nessa vida, relembrou seus pais assassinados na sua frente quando ainda era uma criança, sua noiva que tanto amava, e que morreu num terrível acidente de trânsito causado por um imbecil alcoolizado filhinho de papai que saía de uma festa. Mas depois de muitos anos voltara a se apaixonar, seu coração parecia ter se acalmado novamente e se entregue ao amor de uma linda mulher. Hoje seria o dia de um recomeço, de uma volta a vida.

Carlos olha para a entrada do teatro e vê Andréia, em lágrimas. Mas ele nem percebe isso, só pensa em Carol:
-E aí, cadê a Carol?? Olha a hora, estamos atrasados !!! Se ela não vier eu mato ela...
-Você não vai precisar matá-la, ela já fez isso! Ela suicidou-se!
Ele olha para sua amiga incrédulo, e mesmo entendendo o que ela disse pergunta:
-O quê? Como assim “suicidou-se”?? O que tu queres dizer??
- Exatamente o que eu disse, suicidou-se!!! Dizia, aos prantos.
-Mas como? Quando ? Porque ?
-Ninguém sabe por quê. Fui no apartamento dela agora e a encontrei lá...

Carlos explode em lágrimas, seu coração parece querer saltar de seu peito.
-Alguém matou ela! Foi o ex dela, aquele...
-Ninguém a matou, Carlos, ela própria tirou-lhe a vida! Cortou os pulsos...

Aquelas palavras, aqueles fatos, eram navalhas que atravessavam seu corpo, trituravam seu coração. Não sabia o que pensar, o que fazer, o que dizer. Só sentia uma dor torrencial em seu peito. O mundo parecia lhe desabar sobre a cabeça naquele momento. Outra vez a tragédia lhe batia a porta, lhe visitava. Arrependia-se de tudo o que não fez. Execrava-se a si mesmo. Que diabólica maldição trazia consigo, que fazia com que as pessoas que ele amava viessem a morrer?

-A culpa é minha, Andréia!-dizia a sua amiga. – Se eu tivesse dito a ela...talvez...
-Ninguém é culpado, Carlos! Ninguém sabe nem nunca saberá o que se passou na sua cabeça, o que estava sentindo, do que estava fugindo...
-Como pode?? Ela sempre rindo, sempre alegre, sempre feliz?
-Lembra do que eu te disse? Essa alegria dela era só um escudo para se proteger do mundo e de si mesma. Era uma defesa dela mesma! Eu pensei que ela tinha melhorado, se recuperado, mas vejo que me enganei. Quantas vezes ela me disse que não ficava em paz quando estava só! A tristeza era sua companhia, perto dos outros ela fugia de uma aura negra que a cobria, mas sozinha, vinha um anjo negro fazer-lhe companhia!

A dor apertava o peito de Carlos. As dúvidas dilaceravam sua mente. E se tivesse se declaro a ela naquela noite mudaria o rumo das coisas? Se tivesse dito o quanto ela era importante e especial pra ele? Se tivesse ouvido mais sua amiga... Mas nada responderia suas questões.

E no velório, ao lado do caixão, ele cantava baixinho:
“Quem vai saber o que você sentiu?
Quem vai saber o que você pensou?
Quem vai dizer agora o que eu não fiz?
Como explicar pra você o que eu quis?”

segunda-feira, 24 de março de 2008

HISTÓRIAS DO KARA- 1

O KARA, de pensamento abstrato, conversa com A GAROTA, de pensamento lógico:

- Estou lendo Jack Keroauc. – Diz ele

- Estás gostando ?

- Muito! Estou nos primeiros capítulos mas já estou pensando em fazer o que o Bob Dylan disse que fez ao ler esse livro!

- O que ele disse que fez?

- Leu o livro e fugiu de casa!

- ( Risos ) Idiota ! Tu moras sozinho !

- GAROTA – diz o KARA – O problema de quem estuda exatas é esse, tem o pensamento exato. Quando digo que quero fugir de casa, na verdade estou dizendo que quero fugir da vida que levo, da minha rotina. Quero fugir da mediocridade em que vivo, do meu trabalho, onde sou subordinado a um tolo idiota e imbecil que pensa que o mundo gira em torno dele e de seus funcionários que fazem tudo o que ele ordena de cabeça baixa e sem questionamentos, e ainda agradecem pelo salário miserável que recebem achando que isso é um favor que recebem! Quero fugir desse mundinho de aparências de uma sociedade hipócrita que dita o que é certo e errado, mas que na verdade tem medo de tentar ser feliz e medo de quem a desafia. Essa sociedade tem medo de quem tenta ser feliz do seu jeito, e por isso a recrimina, e a isola. Nos querem todos iguais, todos fantoches calados que fingem ser felizes. E que a felicidade está em produtos X, Y ou Z, e se você não os comprarem nunca atingirá a felicidade. Quero fugir de mim mesmo, do meu comodismo, dos meus preconceitos, dos meus medos, das minhas limitações que eu mesmo me imponho.

A GAROTA pensa um pouco e, sem entender nada, diz:

- Bah, é bom mesmo esse livro, né?

sábado, 8 de março de 2008

O CONQUISTADOR

Ele se chamava Pedro. E era o maior conquistador da faculdade. Tinha uma extrema facilidade em encantar, seduzir mulheres. Não era belo, mas feio também não era. Talvez fosse seu olhar: firme, penetrante, intenso. Ou então sua conversa, que era envolvente, quase irresistível. Era ousado, tinha atitude, sempre bem disposto, bem arrumado. Sabia exatamente onde investir para conseguir mais uma conquista.

Suas preferidas eram as comprometidas. Ele visualizava sua “vítima” e logo traçava uma estratégia para conquistá-la. Analisava seu comportamento, seus gestos. Aproximava-se da menina e puxava algum assunto, e logo começa uma conversa, e aí ele descobria o que ela pensava, o que gostava, e, principalmente, o que queria para sua vida. Com um papo bem despretensioso descobria onde o namorado da moça estava falhando, pois sabia que nenhum relacionamento era perfeito, sempre havia um ponto fraco, e aí com o tempo investia pesado nesse ponto, até consumar sua conquista.

Mas não o fazia por mal, por vaidade. Não buscava somente sexo, ou um nome a mais na sua lista. Todas as mulheres que seduziu, ele estava apaixonado por ela. Seu defeito era apaixonar-se com extrema facilidade, a cada semana, e aí era uma nova conquista. Um simples olhar, um sorriso, um cabelo bonito já o deixava caidinho pela guria. E aí não tinha jeito, era mais uma missão a realizar.

Mas tinha uma coisa que lhe incomodava: Ele não conseguia manter relacionamentos estáveis. Pedro conquistava a garota, ficava umas duas ou três vezes com ela e depois perdia o interesse. Por mais bonita, simpática, interessante que fosse a garota ele perdia o ânimo em estar com ela. E isso começou a lhe incomodar, os anos estavam passando e ele nunca tinha namorado mais do que três meses com uma mesma garota. Queria mudar isso, queria algum relacionamento estável, mas não conseguia controlar sua fraqueza em conquistas.

Quando realizou mais uma sedução, decidiu que aquela seria a última, que controlaria seus instintos e ficaria somente com ela. Até porque tinha sido uma batalha bem difícil, pois a menina era noiva e amava muito o noivo. Mas ela não resistiu as investidas de Pedro, e apaixonou-se perdidamente por ele.

Cinco meses se passaram e Pedro estava conseguindo manter seu planejamento. Já não tinha mais o interesse inicial que tivera pela garota, mais mesmo assim era feliz com ela. Tinham um relacionamento intenso e bem bacana. Apesar de não amá-la sentia-se bem ao seu lado, e preocupava-se muito em fazê-la feliz também. Talvez para conseguir manter seu projeto, talvez para que não viesse outro e tirar-lhe dele.

Um ano se passou e seus amigos estavam incrédulos. Finalmente alguém tinha dobrado seu coração. Ele concordava quando diziam isso, mesmo sabendo que não era verdade. Às vezes pensava se deveria continuar com o namoro, já que tinha cumprido sua meta. Mas já tinha se acostumado com uma relação estável, e não estava mais a fim de voltar a ser reconhecido como um conquistador. Já pensava em construir família, filhos, casamento.

Aos poucos aquele Dom Juan que fora um dia já não se identificava nele. Não tinha mais aquele olhar hipnotizante, mas um olhar vazio, melancólico. Sua conversa não era mais envolvente, irresistível, mas entediante e repetitiva. Nunca fora bonito, mas agora estava barrigudo, com olheiras, com a barba por fazer. Não tinha mais atitude, estava acomodado. Já não era mais o que fora um dia. Mas mesmo assim sua garota continuava linda como antes, e o amando do mesmo jeito de quando se conheceram.

Com o passar dos tempos foi acontecendo uma coisa que lhe deixou feliz. Estava começando a “reapaixonar-se” pela sua, agora, noiva. Foi acontecendo de repente, aquela vontade que tinha de largar tudo e partir para uma nova conquista foi desaparecendo aos poucos, quando se deu por si, a única mulher que pensava, que desejava, era a sua.

Até que um dia, poucos dias depois de completarem três anos juntos, ela chegou para ele e disse que queria ter um assunto sério. Ele logo imaginou que ela queria marcar o casamento. Sim, era o que ele mais queria, casar-se com o seu amor e ter muitos filhos.
Estava radiante para a conversa. Até que ela aproximou-se dele e falou o que era: Ela já não o amava mais, fazia algum tempo, e conheceu recentemente um outro rapaz que a seduziu, e ela estava perdidamente apaixonada por ele.

- Mas como assim, indagou Pedro! - E o nosso noivado, e o nosso relacionamento? Investi tudo em você, deixei dezenas de garotas para ficar só contigo! Mudei meu modo de ser, mudei minha vida para dedicá-la a você e agora tu vem me dizer que está tudo acabado ? O que eu vou fazer da minha vida, preciso de você!

Mas não teve jeito, ela estava apaixonada por outro e decidida a terminar seu relacionamento com Pedro. Confessou a ele que ela era assim mesmo, gostava de namorar sério, mas quando noivava acabava perdendo o interesse, o ânimo com o rapaz. E repentinamente tinha conhecido outro homem e acabara apaixonando-se por ele. Mas dessa vez seria diferente, estava decidida a namorar, noivar com o outro e continuar com ele. Já estava tudo planejado.

Pedro acabou sentindo na pele o mesmo que fizera a suas antigas conquistas, com a diferença de que as mulheres são mais fortes que os homens. O feitiço tinha virado contra o feiticeiro, foi envenenado pelo mesmo veneno que utilizava. Já não sabia mais seduzir, já não tinha mais um papo agradável. Acabou se desiludindo com a vida, se entregando a bebida. Nem de longe lembra mais aquele que já fora o maior conquistador da faculdade!